A chilena Estela Meléndez tinha oficialmente 92 anos em 2015. Extraoficialmente, já que foi registrada apenas aos 17, ela teria 110 anos. E por mais de 60 ela teve uma protuberância em sua barriga, e somente após ir ao médico por causa de uma queda, veio a descobrir algo estarrecedor.
A médica que lhe atendeu se surpreendeu com a protuberância e com o resultado do raio-X, e pediu novos exames, que acabaram confirmando sua suspeita: o volume na barriga de Estela era, na verdade, um feto calcificado. Ou seja, um feto que morreu e, como tinha cada vez menos sangue, teve seus tecidos dissecados.
Em entrevista ao jornal local, Estela e seus familiares contam que na época de sua gravidez, ela se sentiu mal e foi levada ao hospital. Um médico lhe disse que ela tinha câncer e que seria submetida a uma raspagem, para retirada do feto. Mas, pelo visto, a raspagem foi mal feita - ou nem foi realizada.
Os familiares da chilena acusam de negligência médica tanto o hospital onde ela foi atendida na época do aborto (o mesmo que a atendeu agora), quanto uma clínica em que ela fez exames nos anos 80.
Por conta da idade avançada de Estela, ela não deve ser operada.
Explicação aprofundada.
O caso do feto calcificado encontrado na barriga da chilena Estela Meléndez, 92, dificilmente aconteceria com uma jovem grávida nos dias de hoje. Casos como este ocorrem geralmente em uma gravidez fora do útero, onde o feto morreu por não ter condições de sobreviver, mas permaneceu no organismo sem a mulher perceber e sem causar grandes sintomas.
Com os exames de ultrassom atuais, é possível descobrir esse tipo de gravidez rapidamente e retirar o feto, que não tem condições de sobreviver, por meio de cirurgia. Mas antigamente os exames não eram tão precisos e pessoas mais pobres nem sempre tinham acesso a eles. A idosa chilena disse ter acreditado que os médicos lhe fizeram uma raspagem, sem ao menos ter certeza do que se passou em sua gravidez interrompida por um câncer. Tanto que ela descobriu o feto calcificado 60 anos depois.
Com o tempo, o feto morto que fica no organismo sofre um processo de mumificação, cujos tecidos se ressecam sem a irrigação de sangue e começam a ficar impregnados de cálcio. Segundo o obstetra, a calcificação do feto pode demorar de 23 a 100 anos para ocorrer.
“A gravidez fora do útero é um evento raro, e os casos de calcificação do feto são mais raros ainda. Há relatos de menos de 400 casos de gravidez abdominal no mundo em 400 anos de literatura médica e dentre esses apenas de 1% a 2% podem se tornar fetos calcificados”, explica o ginecologista.
O curioso é que em algumas mulheres todo esse processo pode vir livre de sintomas severos, enquanto em outras naturalmente causa fortes dores, que podem ser causadas por infecções ou pela reação do próprio organismo que identifica o corpo estranho. No segundo caso, geralmente elas descobrem o feto no hospital.
Por estar em uma região próxima dos intestinos, o feto pode ser contaminado com alguma bactéria e consequentemente sofrer uma infecção que causará uma dor intensa à grávida.
Por outro lado, a presença do feto calcificado pode ser totalmente imperceptível à mulher, explica Roseane Mattar, presidente da comissão de gestação de alto risco da Febrasgo, sem causar problemas em sua saúde. “Neste processo há a absorção total de líquidos dos tecidos. O feto fica bem diminuído e calcificado, sem liberar substâncias tóxicas, e por isso não causa nenhum problema de saúde. Tanto que algumas mulheres só descobrem o feto quando ele já está calcificado”.